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MAUS-TRATOS
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Quarto branco do BBB 26; após privações extremas, somente quatro participantes entraram na casa
A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão de Estado vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, divulgou uma carta aberta dirigida à produção do BBB 26. O documento critica a dinâmica do quarto branco, que teria, segundo a organização, ultrapassando os limites do entretenimento ao reproduzir tortura. Procurada pelo Notícias da TV desde a tarde de sábado (31), a Globo ainda não se manifestou.
O documento aponta semelhanças entre os "castigos" do quarto branco e as práticas de tortura empregadas durante a Ditadura Militar (1964-19885) no Brasil. Na carta, a comissão ainda alerta o público para o risco de banalização do sofrimento físico e psicológico como espetáculo televisivo.
"Ao utilizar dinâmicas que submetem corpos e mentes a condições extremas --privação de sono, enclausuramento, desorientação espacial, perda da noção de tempo e posições físicas impossíveis de serem sustentadas por longos períodos-- a emissora não apenas testa os limites de seus participantes, mas também os limites da nossa própria humanidade", criticam.
A nossa Constituição Federal, no seu Artigo 5º, é clara: a proibição da tortura e do tratamento degradante é um valor absoluto. Ao transformar esse tipo de sofrimento em espetáculo, a televisão brasileira falha com o seu dever social.
A carta é assinada por representantes da CEMDP, da sociedade civil, do Ministério Público Federal e da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Ela foi formalmente encaminhada à direção da emissora, representada na figura de Leonora Bardini, diretora da Globo.
Entre os representantes que assinam a carta, está o nome de Vera Paiva, filha do deputado Rubens Paiva (1929-1971). Assassinado na Ditadura Militar, ele teve sua história contada no filme Ainda Estou Aqui (2024), premiado no Oscar do ano passado como melhor filme internacional.
A CEMDP foi a primeira Comissão de Estado criada especificamente para lidar com os legados da ditadura. Fundada em 1995, ela segue em atividade, apesar de ter sido interrompida no final de 2022. A comissão foi recriada e reinstalada pelo governo federal em 2024, atuando para localizar e reconhecer os mortos e desaparecidos pela Ditadura Militar.
O quarto branco chegou ao fim na madrugada de 18 de janeiro, após a participante Rafaella Jaqueira sentir um mal-estar e desmaiar enquanto tentava se equilibrar em pé em uma plataforma junto de seus concorrentes. No total, a disputa ultrapassou a marca de 120 horas, um recorde histórico para o reality show.
Depois do desmaio, Rafaella precisou receber atendimento médico e foi eliminada da disputa. O apresentador Tadeu Schmidt anunciou que Chaiany Andrade, Gabriela Saporito, Leandro Rocha e Matheus Moreira --os brothers restantes-- poderiam participar oficialmente do reality.
Os candidatos, que não foram escolhidos pelo público nas casas de vidro, estavam confinados no cômodo desde a noite de 12 de janeiro. Eles foram submetidos a barulhos incômodos e demais privações dentro do quarto totalmente fechado, e só dispunham de quantidade limitada de água e biscoitos.
Procurada pela reportagem, a assessoria de comunicação da Globo ainda não se manifestou sobre o assunto. O espaço segue aberto.
Leia a carta da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) na íntegra:
"'Se um trauma pode ser passado de geração em geração, os valores também podem.' Wagner Moura.
Nós, abaixo assinadas, integrantes da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), instituída pela Lei 9.140/95, escrevemos esta carta aberta movidas por uma profunda inquietação ética. O que se assistiu recentemente no programa Big Brother Brasil, com a dinâmica chamada de quarto branco, ultrapassou as fronteiras do jogo e do entretenimento para ingressar em um terreno perigoso que flerta com a
violência física e o flagelo psicológico.
É impossível ignorar que tais métodos guardam uma semelhança aterradora com as práticas de tortura empregadas sistematicamente pela ditadura civil-militar brasileira, um período de dor que ainda deixa cicatrizes na memória de nossa nação, mas que, por seu apelo, atraem uma plateia de milhões de pessoas.
Ao utilizar dinâmicas que submetem corpos e mentes a condições extremas --privação de sono, enclausuramento, desorientação espacial, perda da noção de tempo e posições físicas impossíveis de serem sustentadas por longos períodos-- a emissora não apenas testa os limites de seus participantes, mas também os limites da nossa própria humanidade.
Sabe-se que a prática do quarto branco não é novidade no programa em questão, mas a sua utilização vem sendo intensificada, tanto que, na madrugada do último dia 18 de janeiro, umas das participantes chegou a desmaiar, após mais de 100 (cem) horas de reclusão no aludido quarto e depois de ser obrigada a permanecer em pé em uma espécie de pedestal com ínfimo diâmetro, prática utilizada como tortura durante as ditaduras latino-americanas.
Não podemos aceitar o argumento de que o 'consentimento' dos participantes ou a 'busca pelo prêmio' validem tais práticas. A nossa Constituição Federal, no seu Artigo 5º, é clara: a proibição da tortura e do tratamento degradante é um valor absoluto. Ao transformar esse tipo de sofrimento em espetáculo, a televisão brasileira falha com o seu dever social.
Mais do que uma escolha editorial, a programação de uma emissora é regida por normas constitucionais específicas. O Artigo 221 da Carta Magna estabelece que as concessões públicas de radiodifusão devem ter finalidades educativas e culturais, respeitando sempre os 'valores éticos e sociais da pessoa e da família'. Uma concessão pública deveria ser utilizada para passar valores entre as gerações --como disse o ator acima citado, em consonância com os princípios constitucionais-- e não para reforçar traumas coletivos.
Na psicologia e na sociologia, constata-se que o trauma não resolvido tende a ser transmitido aos descendentes, seja pelo comportamento, pela cultura ou pela negligência institucional.
Assim, como integrantes da CEMDP, órgão de Estado, responsável por medidas de memória, verdade e reparação das vítimas da ditadura e seus familiares, esperamos que a presente carta sirva de alerta para que: a) a emissora considere seriamente a possibilidade de rever a utilização das práticas aqui descritas; e que b) a própria sociedade brasileira seja chamada a refletir sobre sua adesão a essa aparente forma de entretenimento.
A memória das vítimas da violência de Estado exige que não sejamos coniventes com a dessensibilização da população diante da dor alheia.
Assinam esta carta,
DIVA SOARES SANTANA
Representante dos familiares de mortos e desaparecidos políticos
VERA FACCIOLLA PAIVA
Representante da sociedade civil
MARIA CECÍLIA ADÃO
Representante da sociedade civil
NATÁLIA BONAVIDES
Representante da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados
EUGÊNIA AUGUSTA GONZAGA
Procuradora Regional da República"
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