GRANDE IRMANDADE
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Davi Brito, campeão do BBB 24, em vídeo nas redes sociais: vigilância continua fora da casa
A marca dos 100 dias de confinamento já se tornou um dos principais paradigmas do BBB para a Globo. Ou seja, três meses e alguns quebrados em que o público vai acompanhar os competidores incessantemente, numa escala de 24/7. Afinal, além da edição ao vivo, o pay-per-view se tornou mais acessível financeiramente com a chegada do Globoplay. Contudo, as últimas edições já deixaram claro: se for bem-sucedido, um participante não vai deixar de ser vigiado nunca mais.
Não é um exagero considerar que o prêmio milionário não é mais o principal atrativo para os jogadores. Se antes ser ex-BBB até pegava mal, relegando os brothers à categoria de subcelebridades, agora o reality é uma verdadeira fábrica de influenciadores e influenciados.
Não à toa, é até difícil lembrar que Renata Saldanha ganhou o BBB 25 quando Davi Brito segue onipresente: das estratégias mais "tradicionais", como criar factoides para aparecer na mídia tradicional (vide sua luta contra Sacha Bali), aos vídeos criados com o mero objetivo de virar meme.
Hoje, o vencedor do BBB não é necessariamente quem leva o maior prêmio em dinheiro, mas quem conquista a maior atenção do público. Davi é um dos raros casos em que as duas vitórias andam juntas --assim como aconteceu com Juliette. Mas não faltam exemplos do caminho oposto: Mayra Cardi, por exemplo, deixou o BBB 9 sob rejeição e, anos depois, pode até se dar ao luxo de abandonar as redes depois de construir uma fortuna justamente nelas.
O mais curioso é que esse movimento talvez seja justamente a coisa mais anti-BBB que já aconteceu ao programa. A figura do Grande Irmão --tirada da distopia 1984, de George Orwell (1903-1950)-- deixa de ser temida e passa a integrar, de maneira quase natural, o próprio processo de construção do eu.
O grande desafio do jogo sempre foi ser vigiado: perder a privacidade e se submeter ao julgamento de pessoas que você jamais viu, dentro e fora da casa. Mas essa descrição, convenhamos, se parece muito mais com um dia comum no Instagram ou no TikTok --nas quais milhões produzem vídeos da própria rotina e publicam sem a menor ideia de para quem o algoritmo vai entregar aquele conteúdo.
No fim das contas, o BBB pode até continuar vendendo a mística dos 100 dias de confinamento, mas esse limite já não existe mais na prática. O reality se estende muito além das paredes da casa e se mistura ao cotidiano hiperexposto fora dela.
Para os participantes bem-sucedidos, o jogo começa antes da estreia e não termina nunca: segue nos posts, nos cortes virais, nos factoides, nos contratos e na eterna disputa pela atenção.
O Grande Irmão, que antes simbolizava vigilância e controle, virou combustível para uma forma de existir que depende justamente de ser observado. E, para muitos, essa é a verdadeira vitória.
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