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SOCIEDADE
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Sol Vega no BBB 26; veterana ainda enfrenta as marcas do racismo vivido na edição de 2004
O retorno e a expulsão de Sol Vega no Big Brother Brasil, mais de duas décadas depois de sua primeira participação, levantam um debate que ultrapassa o entretenimento: o programa e seu público aprenderam, de fato, a combater o racismo? Embora o discurso pela diversidade tenha ganhado força na produção, a repetição de padrões de exclusão e a reação seletiva da audiência sugerem que a evolução pode ser ainda superficial.
Em 2004, Sol vivenciou uma série de discriminações no confinamento. Em um dos casos mais emblemáticos, durante uma briga, a participante Marcela Queiroz usou ofensas racistas para atingir a rival, utilizando o termo "pixaco" para se referir, de forma pejorativa, ao cabelo crespo de Sol.
Já em 2026, em meio a embates com participantes como Ana Paula Renault e Juliano Floss, Sol fez menção a questões raciais, o que gerou comoção imediata. O público nas redes enxergou que a participante estava em contato direto com seus traumas do passado, mesmo que o conflito atual não envolvesse episódios racistas.
O pesquisador Pedro Henrique Conceição dos Santos, doutor em Mídia e Cotidiano pela Universidade Federal Fluminense (UFF), lembra que os conflitos sobre racismo não são recentes no BBB; mas sua visibilidade, sim. "Sol parece estar revivendo o BBB 4 e não consegue se desvencilhar de situações em que o racismo foi reproduzido inúmeras vezes contra ela", explica ele, em conversa com o Notícias da TV.
Santos ressalta que a sociedade brasileira ainda reproduz o racismo em diversos espaços, lembrando que quase todos os participantes negros que passaram pela Casa de Vidro nesta edição acabaram eliminados antes mesmo de entrar na casa.
Para o especialista, a indignação atual dos internautas demonstra a importância de ações de educação sobre as relações étnico-raciais, que tornaram o público mais atento ao preconceito. Contudo, ele acrescenta que o país continua longe de tratar o racismo como o problema estrutural que ele é.
"Vimos situações muito problemáticas, de todos os lados. Apesar de sua trajetória no programa ter sido controversa, o fato de a Karol Conká, do BBB 21, ter, até hoje, a maior rejeição da história do programa, com mais de 99% dos votos, diz muito sobre como a sociedade pensa. É necessário lembrar que já tivemos participantes com atitudes comparáveis ou até mais complicadas e, nem por isso, tiveram os mesmos números de rejeição do público", aponta.
Diante desse cenário, surge a discussão sobre o papel da produção. Punições mais evidentes, como recados ao vivo ou até expulsões --dado que o racismo é uma forma de violência--, são apontadas como caminhos necessários após episódios de racismo.
Na mesma edição de Karol Conká, o participante João Luiz Pedrosa passou por um episódio de racismo dentro da casa, quando o cantor Rodolffo comparou o cabelo do professor a uma peruca de homem das cavernas. João expôs a dor do comentário ao vivo, o que levou a uma intervenção do então apresentador Tiago Leifert, que decidiu chamar a atenção do sertanejo sobre o racismo estrutural e violência simbólica.
No entanto, o pesquisador lembra que o fluxo do entretenimento muitas vezes atropela a profundidade do debate. Como o BBB é um programa de novidades constantes, qualquer discussão, inclusive a racial, tende a ser esquecida em pouco tempo assim que um novo bate-boca surge.
"Quando a gente fala de um programa com o alcance do BBB, é óbvio que há a responsabilidade social envolvida e, no mundo ideal, toda e qualquer pauta, incluindo o racismo, deveria ser tratada de maneira adequada. Mas, como qualquer luta, a luta antirracista é muito maior do que o programa", diz ele.
O pesquisador ainda cita a trajetória de Thelma Assis, campeã do BBB 20, como um exemplo de sucesso em que a pauta antirracista ganhou força nas redes sociais e pautou o país de maneira positiva.
"É possível fazer valer a luta antirracista e combinar com o entretenimento. Basta se lembrar da trajetória da Thelma Assis, campeã do BBB 20, que foi muito concorrido. Do lado de fora, as pautas raciais e a luta contra o racismo se tornaram pauta, principalmente nas redes sociais digitais, onde sua trajetória ganhou ainda mais força e fortaleceu o debate antirracista", lembra.
O desafio também se mostra nos dados que avaliam a sociedade brasileira. Uma pesquisa de 2023 do Instituto de Referência Negra Peregum com o Projeto Seta (Sistema Educacional Transformador e Antirracista), da Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), mostra que oito em cada 10 brasileiros acreditam que o país é racista, mas os mesmos oito afirmam nunca terem tido uma atitude racista. Ou seja, o racismo é sempre um erro "do outro".
Já o Datafolha indicou no final de 2024 que 45% da população acredita que o racismo aumentou recentemente, e 59% da população brasileira diz que a maioria do país é racista. "Então fica a pergunta: como o programa vai resolver o problema da reprodução do racismo se ele não é reconhecido, nem mesmo nas nossas atitudes?", aponta Santos.
Quanto mais o debate avançar na sociedade, mais a emissora será cobrada por atitudes que acompanhem a evolução de seu público. "Daí a importância de leis como a Lei nº 10.639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras, em todos os níveis educacionais. Porque é através da educação que poderemos mudar a sociedade e, quem sabe, mudar o cenário", resume o pesquisador.
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