ENTREVISTA
REPRODUÇÃO/TV GLOBO

Valéria Almeida no Encontro; apresentadora cobre as férias de Patrícia Poeta no programa
A jornalista Valéria Almeida encara mais uma temporada no comando do Encontro, enquanto a titular Patrícia Poeta está de férias. Mesmo já tendo assumido o posto anteriormente, a apresentadora admite que ainda sente um frio na barriga ao entrar ao vivo no matinal da Globo. Ainda mais por estar ciente de que sua presença na TV aberta é cada vez mais essencial.
A comunicadora sabe, por exemplo, como é significativo aparecer nas telinhas todos os dias com seus cabelos crespos --virando inspiração para milhares de meninas e mulheres negras, que até pouco tempo atrás não tinham tantas referências no audiovisual.
"Sou essa pessoa com esse cabelo, com esse tom de pele, porque isso representa quem sou e a minha origem, a minha ancestralidade, o que eu trouxe dos meus pais", valoriza ela em entrevista ao Notícias da TV.
Na conversa com a reportagem, Valéria também ressalta a importância do quadro Bem Estar por trazer informação confiável sobre saúde numa época em que as notícias falsas viralizam com facilidade nas redes sociais.
A jornalista ainda fala sobre o Paulistar, atração exibida aos sábados na capital paulista, e explica como concilia os trabalhos com a vida pessoal.
Confira a entrevista exclusiva com Valéria Almeida:
NOTÍCIAS DA TV - Como é para você assumir a apresentação do Encontro durante as férias da Patrícia Poeta? Apesar de não ser a primeira vez, ainda sente um friozinho na barriga ou alguma pressão por estar à frente do programa?
VALÉRIA ALMEIDA - Agora, nesse mês de julho, eu completo dois anos cobrindo as férias e as folgas da Patrícia Poeta, e é sempre uma missão muito prazerosa e muito honrosa. Esse é um programa que tem uma importância muito grande para a Globo, com um prestígio muito grande para a TV brasileira. Então, é um prazer e uma honra fazer parte desse time que apresenta o programa da supermanhã.
É uma dinâmica que sempre me dá um frio na barriga, porque todo dia é o primeiro dia. São notícias diferentes, novos entrevistados. Por isso, por mais que a gente se prepare, estude muito para fazer o programa da melhor forma possível, é sempre um programa ao vivo.
E esse frio na barriga é também a graça dessa dinâmica, de fazer uma programação que entra na casa das pessoas, com tudo que pode acontecer num programa ao vivo, as notícias que chegam, que fazem a programação mudar. É um desafio diário, satisfatório e bastante prazeroso.
Você busca trazer um pouco da própria identidade para o programa enquanto apresenta? Tem como equilibrar o estilo da atração e também imprimir a sua personalidade?
Sempre tento manter a minha identidade nos programas que eu apresento, porque é muito importante para mim que o público me veja exatamente do jeito que eu sou. A minha forma de falar, o meu ritmo, o meu modo de olhar no olho, a minha forma de enxergar a vida, tudo é significativo, porque espero que a pessoa que me encontre na rua veja que sou exatamente quem ela permitiu que entrasse em sua casa, levando notícia, entretenimento e diversão.
Não separo a forma como falo sobre o que tem de bom e o que tem de ruim. Falo do mesmo jeito na TV, na roda de amigos, numa palestra, porque em todos os lugares é fundamental que exista essa conexão pelo que eu sou verdadeiramente.
E como é a recepção do público quando você está no comando do Encontro? A repercussão ainda te surpreende de alguma maneira? Como lida com o retorno dos telespectadores nas redes sociais e fora delas?
Durante esses 14 anos de TV, tenho sido muito abraçada pelo público. A minha relação com as pessoas, o carinho delas, é sempre algo muito grandioso e, apesar de estar há muito tempo na TV, é sempre muito surpreendente.
Às vezes, as pessoas falam comigo numa intimidade que é a de quem me encontra todos os dias. E isso é bonito, porque significa que a gente está se conectando de verdade. Mas também tenho a cabeça muito centrada, faço terapia para não me iludir nem me abalar, tanto pelo que chega de bom quanto pelo que vem de ruim.
O público se conecta comigo porque consegue enxergar e entender a minha essência, e alguns podem fazer críticas porque podem não gostar da forma como sou ou faço [meu trabalho]. Mas, para mim, o que importa é a minha verdade, que faz com que esteja muito conectado comigo mesma, assim a conexão com o público vai ser consequência de algo que é verdadeiro.
Quando eu recebo um elogio, entendo que é um carinho, fico com ele para mim! E quando recebo uma crítica, observo, analiso o que é pertinente, o que realmente é construtivo para um trabalho melhor e separo bem de pessoas que querem deixar alguém para baixo. Consigo separar bem uma coisa da outra.
Falando um pouquinho também sobre o Bem Estar... Qual é o principal desafio de tratar de temas sobre saúde e qualidade de vida em uma linguagem acessível para todos os públicos?
Eu olho para o Bem Estar e entendo esse quadro como algo muito relevante, capaz de levar informação para as pessoas, não só para que elas possam identificar sinais e sintomas, como também para que saibam quais tratamentos existem, o que está disponível no SUS [Sistema Único de Saúde], quais os direitos que têm, como podem reivindicar direitos, buscar tratamentos, fazer seus exames preventivos, diagnósticos... Para que elas possam ter acesso à saúde, que é um direito previsto na Constituição e está na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Um desafio desse quadro é transformar uma linguagem técnica, muitas vezes difícil de ser compreendida por quem não é da área da Medicina e da ciência, em algo palpável e compreensível, por quem tem o mais alto nível de escolaridade e por quem nunca teve acesso à educação.
O meu desafio é fazer com que todo mundo saiba o que sente, reconheça o que o corpo está dizendo e saiba o que fazer para cuidar, onde procurar ajuda. Por isso, considero que esse quadro é um serviço para a sociedade e tenho grande prazer também de apresentá-lo todos os dias.
Alguma pauta do Bem Estar mexeu mais com você pessoalmente ou te impactou para além do programa?
Ao longo desses anos, são nove anos participando do Bem Estar, antes como repórter do programa, depois como apresentadora do quadro... Muitos foram os assuntos que eu abordei e que mexeram comigo. Quando falei da endometriose, fiz questão de compartilhar minha experiência, o meu diagnóstico, e pude alertar as pessoas que também sentiam sintomas atípicos, ou não tão conhecidos, como os que eu tinha.
Isso porque eu nunca tive dores, mas sempre surgia uma diarreia no período menstrual, o que fez com que meu diagnóstico demorasse muito para chegar. Recebi o retorno de muitas mulheres com esses mesmos prognósticos, e que também estavam tendo esses sintomas negligenciados, mas, depois disso, tiveram seus diagnósticos fechados.
Isso me trouxe uma felicidade imensa! Assim como também me trouxe muito prazer quando pude falar sobre um tratamento que estava sendo adotado num hospital público, para crianças que nasciam com fenda labial, e recebi retorno de mães que assistiram e puderam começar o tratamento no momento adequado, porque essa técnica precisava ser iniciada nos primeiros momentos da vida.
Isso fez com que seus filhos deixassem de ser submetidos a quase dez cirurgias e passassem a concluir o tratamento com procedimentos bem mais simples. Isso foi muito gratificante, porque consegui enxergar o impacto real e direto na vida de alguém, por conta de uma informação de qualidade chegando na casa das pessoas.
Há ainda uma responsabilidade extra de passar a informação correta em meio a tantos tratamentos fakes divulgados nas redes sociais?
É sempre um desafio levar informação verdadeira num período em que tem tantas informações mentirosas circulando, né? Um grande desafio falar para as pessoas sobre vacinas, sobre a importância delas, sempre trazendo estudos e os impactos positivos da vacinação.
O Brasil avançou muito na saúde quando conseguiu vacinar a população, e hoje a gente vê muita gente abandonando. São vacinas que estão disponíveis no SUS, mas acaba não havendo adesão por conta de desinformação, propagada livremente em redes sociais, em grupos de WhatsApp.
Então, meu trabalho é compreender isso e fazer com que as pessoas acreditem. Por isso, continuamos trabalhando muito para que as pessoas consigam ter essa informação verdadeira e tratar da própria saúde da melhor forma possível.
Você também comanda o Paulistar. Como enxerga essa conexão com o público paulista? O que mais te atrai nesse projeto de apresentar São Paulo para os próprios moradores da cidade e da região?
Quando recebi o convite para ser a apresentadora do Paulistar, fiquei extremamente feliz. Sempre digo que o Paulistar é o lado bom da vida! É nossa chance, a possibilidade de mostrar a cultura de cada bairro, porque nós somos muito diversos e muito complementares, o que faz São Paulo, capital e região metropolitana, ter tudo isso, todos esses ingredientes que se somam e formam essa grande metrópole.
Poder chegar nas pessoas, contar suas histórias de vida, mostrar como elas se divertem, como encontram prazer nos espaços que habitam, como preservam e propagam suas tradições adiante, as suas culturas, é um privilégio imenso.
Recebi como um grande presente, como reconhecimento do meu trabalho desses 14 anos na TV e como uma grande possibilidade de ser ainda mais feliz fazendo o que amo fazer. Mais bonito ainda é ver o retorno das pessoas que vivem nos bairros retratados, que se sentem honradas, me mandam mensagens lindíssimas.
E as pessoas que são de outros bairros passam a conhecer, a querer visitar também, a ter orgulho, a entender as diferenças. E tudo isso não é algo que diferencia, mas algo para ser valorizado, celebrado e aproveitado.
Você é de Santos [no litoral de São Paulo], certo? Há quantos anos mora na capital paulista? Acha que o Paulistar também te ajuda a descobrir essa cidade?
Eu nasci e cresci em Santos, e vim para São Paulo em 2006. Isso tem 19 anos. Aqui eu comecei a trabalhar assim que me formei em Jornalismo, aqui continuei meus estudos, fiz minhas pós-graduações e vários outros cursos. Me mudei e estabeleci um lar aqui com a minha família, com o meu marido e com o meu filho. Formei grupos novos e estabeleci novos vínculos de amizade.
O Paulistar me apresenta São Paulo o tempo inteiro, porque é um lugar tão grande e tão cheio de particularidades, que, a cada vez que saio de casa, é um novo aprendizado. Ser conduzida no Paulistar por quem vive, por quem nasceu em um determinado lugar e faz questão de preservar a história, que fala com orgulho de onde vive, é a melhor escola que eu poderia ter. Quanto mais ando, mais eu conheço e mais amo São Paulo. Sou ainda mais grata por ter sido abraçada por esse lugar tão grandioso.
Como concilia a apresentação do Encontro, as pautas do Bem Estar e as gravações do Paulistar também com o seu trabalho como palestrante? Precisa de organização para também ter o espaço para a vida pessoal, né?
Essa é a pergunta mais difícil de responder, porque eu mesma me surpreendo com a minha capacidade de gerir meu tempo para não abrir mão de nenhuma dessas tarefas que me trazem tanta felicidade. Mas é claro que, para dar conta, também conto com uma rede de apoio. Tenho um marido que é muito parceiro, que me dá suporte familiar e suporte profissional, no que diz respeito às palestras que faço, aos eventos que participo fora da Globo.
Já dentro da TV, tem equipes que são muito qualificadas e parceiras, então a gente trabalha muito junto e assim consigo estar no Encontro, organizar meu horário com a equipe do Paulistar para gravar em outro período, e que possa realmente não precisar renunciar a nenhuma dessas atividades, desses trabalhos, desses programas.
Nem deixar de lado minha vida pessoal, porque além de conciliar a apresentação do Bem Estar no Encontro, cobrir as férias da Patrícia no programa, apresentar o Paulistar, tenho um marido com um casamento de 15 anos, um filho de 19, que é meu enteado, e que estou com ele desde que tinha só dois anos e meio, e é o meu amor da minha vida.
Para fazer tudo isso, realmente, além da minha disposição e da minha entrega, é preciso que as outras partes, os meus parceiros, familiares e profissionais estejam comigo, me dando esse suporte. Por isso, sou extremamente grata a todos eles.
A sua presença em tantos projetos na TV aberta também é bastante importante pela representatividade. Ainda sente essa responsabilidade como mulher negra e comunicadora de abrir esse espaço?
Eu tenho ciência da importância da minha imagem, da minha postura, tanto para as pessoas negras, para se reconhecerem e se inspirarem, quanto também para as pessoas que não são negras, para criarem um repertório, um olhar para pessoas como eu em diferentes postos, em diferentes funções, podendo cumprir seus trabalhos e desenvolver suas habilidades, onde quer que seja, em qualquer espaço que escolherem.
Por isso, tenho noção dessa responsabilidade e faço o meu melhor para honrar e inspirar quem precisa ser inspirado, quem pode se sentir fortalecido, ao mesmo tempo que vou existindo, sendo só uma pessoa, que também está sujeita a falhas, a erros.
E falo em fazer meu melhor quando me dedico ao meu estudo e quando penso no impacto que a minha imagem vai gerar. Penso a todo momento na roupa que eu visto, como vai estar meu cabelo, porque sei que crianças e jovens vão se sentir fortalecidos, que os mais velhos vão se sentir honrados e que isso pode deixar uma marca positiva na vida de quem se conecta comigo todos os dias pela TV.
Você costuma receber mensagens de meninas ou mulheres negras dizendo se sentirem representadas ao te verem na TV? Principalmente por usar seu cabelo natural, algo que até pouco tempo atrás infelizmente não era nem permitido. Alguma história te marcou especialmente?
Sim, eu recebo muitas mensagens de pessoas que escolheram fazer transição capilar, de mães e pais que mandam fotos de filhos, mostrando que querem ser como eu, que olham para a televisão e falam que somos parecidos. Ou de pessoas mais velhas que, às vezes, me perguntam de um penteado, porque me viram na TV ou nas redes sociais, em algum evento, e gostaram de como fiz um penteado, mantendo ele crespo, e isso é muito significante.
Sempre respondo quando me perguntam o que faço, como faço, compartilho informações do que e de como uso. Sempre passo tudo. Entre tantas mensagens muito bonitas, recebi uma que veio da mãe da Dandara, uma menina de Salvador que me viu na TV. Eu estava apresentando o Bem Estar no É de Casa, e ela disse para a mãe que eu era bonita e que meu cabelo era como o dela, mas que o meu ficava solto e volumoso e o dela só ficava preso.
A mãe me mandou um relato, dizendo que prendia porque a filha era criticada pelo cabelo crespo e que consideravam como se ela não estivesse cuidando da filha. Queria saber como é que eu cuidava do meu. Mandei para ela um vídeo com um passo a passo, com os caminhos... Como fazia, como penteava, os cremes que passava e como finalizava.
Depois, ela me mandou a foto da Dandara com o cabelo volumoso, lindíssimo, com um laço... E foi tão lindo! A direção ficou impactada, tão emocionada que eu fui até a Bahia para encontrá-la.
Tenho certeza de que ela representa outras tantas pessoas que muitas vezes não escrevem, mas são impactadas positivamente, e isso é muito admirável, porque sou essa pessoa com esse cabelo, com esse tom de pele, porque isso representa quem sou e a minha origem, a minha ancestralidade, o que trouxe dos meus pais. Da mesma forma, é bonito me ver com a liberdade de ocupar os espaços como sou, com o meu cabelo natural. Tudo é muito bonito!
Na sua opinião, de que forma a TV brasileira ainda pode avançar mais na questão da diversidade e representatividade, não só diante das câmeras, mas também nos bastidores?
Eu acredito que o jeito é seguir com as políticas, com os programas afirmativos, fazendo contratações com olhar para a diversidade, como um todo, tendo pessoas negras, pessoas trans, pessoas com deficiência, pessoas de diferentes regiões do país, com diferentes sotaques, para que realmente a gente seja cada vez mais diverso nos espaços, uma vez que a gente tem a diversidade na frente e atrás das câmeras. A gente tem uma comunicação cada vez mais assertiva, mais representativa e outras tantas pessoas vão se sentindo inspiradas e fortalecidas.
Dos 14 anos que estou na TV, tenho visto um movimento muito forte e intencional para a contratação de pessoas muito diversas. Isso é muito significativo, porque realmente acredito que só vai ter uma sociedade justa e inclusiva se quem está no poder promover essa transformação com intencionalidade.
Tenho achado prazeroso viver esse momento, em que essa mudança está acontecendo, enquanto eu estou vivendo. É muito bonito entrar num programa e ver uma equipe diversa, como a que a gente tem no Encontro, por exemplo, que tem homens e mulheres cis e trans, pessoas de diferentes regiões do Brasil, com diferentes sotaques, com diferentes origens sociais. Isso traz esperança de ter dias cada vez melhores.
E o que o público pode esperar de você daqui para frente? Há algum projeto ou desejo profissional que ainda queira realizar?
Para começar, o público pode continuar esperando o meu comprometimento, minha entrega em tudo que eu fizer. Agora estou muito dedicada a cuidar desse filho que me foi entregue, que é o Paulistar, eu tenho vivido essa relação de amor com esse programa e tem sido muito prazeroso, muito satisfatório.
Ele me realiza de diferentes formas e, agora, espero que o futuro seja tão bonito quanto tem sido o meu presente. Tenho muitos sonhos e muitas ideias. Espero continuar conseguindo realizá-los como tenho realizado até agora. E aí, quando eles estiverem mais próximos de existirem, prometo compartilhar.
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