MACHISMO
Reprodução/ Instagram

Grace Abdou, repórter da Record, foi empurrada ao vivo pelo colega Lucas Martins, da Band
A agressão sofrida pela repórter Grace Abdou, da Record, vinda do colega de profissão Lucas Martins, da Band, e transmitida ao vivo pelas duas emissoras na tarde de terça-feira (1º), pode ser mais um sintoma estrutural do machismo e da violência de gênero na TV do que um evento isolado.
Os repórteres disputavam a mesma pauta, sobre o desaparecimento de duas adolescentes em São Paulo, quando o desentendimento saiu dos bastidores e chegou até o público. Martins acusou Grace de atrapalhar seu trabalho, enquanto a repórter o confrontou ao vivo: "Por que você me empurrou?".
Ele confirmou o empurrão e justificou, irritado: "Porque você entrou propositalmente na minha frente, e não é a primeira vez". Lucas ainda chegou a chamá-la de "louca" durante o bate-boca. A profissional optou por registrar um boletim de ocorrência.
A transmissão da Record deixou evidente o empurrão do profissional da Band: as imagens mostram Lucas Martins afastando a colega com força, em um gesto que chegou a ser descrito como "jogada longe" pelo apresentador do Cidade Alerta, Reinaldo Gottino.
Para a professora Simone Evangelista, do Departamento de Teoria da Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o caso também diz muito sobre os impactos da desigualdade de gênero, sobretudo no exercício da profissão.
"O machismo faz com que o corpo da mulher, principalmente se não está em uma posição de sexualização ou cuidado, seja lido como inconveniente. Por isso ainda temos tantos casos de homens que assediam sexualmente repórteres diante das câmeras", lembra.
A professora ainda diz que cenas lamentáveis como a da repórter agredida mostram "o quanto as mulheres ainda precisam lutar pelo direito de exercer sua profissão ou simplesmente frequentar o espaço público com dignidade".
"Graças a mobilizações sociais históricas e à Lei Maria da Penha, a violência física contra as mulheres no local de trabalho, sobretudo quando há evidências visíveis, quase sempre é rapidamente reprimida", diz.
No caso de Grace Abdul, o ataque partiu de um colega de profissão. No entanto, segundo dados da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), que monitora ataques a jornalistas no Brasil, de janeiro a dezembro de 2024, foram registrados 65 ataques a profissionais, com viés de gênero, vitimando mulheres no Brasil.
Dentre os casos, 18,5% foram por ameaças e intimidação e 10,8% por agressões físicas. Mas não só. 66,1% dos casos também incluem a "violência simbólica" que busca difamar e constranger as vítimas. Para Simone Evangelista, quebrar esse ciclo depende diretamente de políticas para o combate às desigualdades e da conscientização de que "o machismo, em todas as suas manifestações, é inaceitável".
"Muitas vezes a mulher enfrenta situações constrangedoras já nas entrevistas de emprego, quando questionamentos sobre temas como a maternidade são colocados em jogo. Uma vez empregada, ela tem mais dificuldades para negociar salários e conquistar posições de liderança, dentre inúmeras formas de violência simbólica que reforçam as desigualdades de gênero", diz.
Em nota, a Record repudiou a agressão e reafirmou que um boletim de ocorrência foi registrado, acrescentando que "as medidas judiciais cabíveis serão tomadas". Já a Band afirmou que fez uma advertência a Lucas Martins e se colocou à disposição da jornalista empurrada.
Veja a nota completa da Record:
"A Record condena veementemente a agressão praticada pelo repórter da Band, Lucas Martins, ocorrida na tarde desta terça-feira, 01 de julho, contra nossa repórter Grace Abdou. O boletim de ocorrência foi registrado e medidas judiciais cabíveis serão tomadas."
Pouco depois do ocorrido, ainda ao vivo no Brasil Urgente de terça, Lucas se manifestou sobre o que Joel Datena chamou de "entrevero".
"Na disputa por espaço, tive uma atitude inaceitável. Acho que cabem poucas explicações. Estava ao vivo, buscando espaço. Isso é inaceitável e venho a público pedir desculpas por esse episódio lamentável", declarou o repórter.
Veja também o comunicado da Band na íntegra:
"A Band vem a público reafirmar seu compromisso, ao longo de seus 58 anos de história, com o respeito mútuo entre os profissionais da imprensa. A emissora sempre valorizou e respeitou a atuação das mulheres, que ocupam espaços de destaque nas redações e demais setores.
A empresa não compactua com o episódio envolvendo o repórter Lucas Martins e a jornalista Grace Abdou, da Record. Ressaltamos que Lucas possui uma longa trajetória profissional na Band, sem registros de condutas semelhantes. Ele foi advertido e já se retratou publicamente em relação ao ocorrido.
A Band se coloca à disposição da jornalista e da Record com o sincero desejo de que o episódio seja superado e situações como essa não se repitam."
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