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MÉDICO EXPLICA

Doença celíaca: Entenda condição que levou Isis Valverde a ser internada 3 vezes

REPRODUÇÃO/INSTAGRAM

Foto do rosto da atriz Isis Valverde

Isis Valverde em foto publicada no Instagram; a atriz lida com doença celíaca desde os 19 anos

GABRIELA RODRIGUES

gaby@noticiasdatv.com

Publicado em 27/5/2026 - 18h00

Recentemente, a atriz Isis Valverde revelou as dificuldades de conviver com a doença celíaca. A condição enfrentada pela intérprete é agressiva e chegou a levá-la ao hospital três vezes. De acordo com o gastroenterologista Jacques Matone, o diagnóstico não se resume a uma intolerância alimentar. "Quando a pessoa ingere glúten, o próprio organismo reage de forma inadequada e começa a atacar o intestino delgado", explica. 

Em entrevista ao Notícias da TV, o especialista detalha os sintomas, os riscos e as formas de tratamento da doença celíaca. No caso de Isis, o problema foi identificado aos 19 anos

"A doença celíaca não é uma simples intolerância alimentar. É uma doença autoimune. Isso significa que, quando a pessoa ingere glúten, proteína presente no trigo, no centeio, na cevada ou na aveia, o próprio organismo reage de forma inadequada e começa a atacar o intestino delgado. E aqui está o ponto mais importante: o intestino funciona como uma grande área de absorção de nutrientes", destaca Matone.

Quando o intestino inflama de forma crônica, vitaminas, ferro, cálcio e diversos nutrientes deixam de ser absorvidos corretamente. O paciente, então, pode desenvolver anemia, perda de peso, fadiga intensa, osteoporose e até algumas alterações neurológicas.

"Muita gente acha que a doença celíaca é apenas dor de barriga ou desconforto intestinal, mas não. Ela pode afetar o corpo todo, e o mais impressionante é que algumas pessoas têm poucos sintomas digestivos e, mesmo assim, podem ter um intestino bastante inflamado. Por isso, hoje ela é vista como uma condição sistêmica que afeta o corpo inteiro. É uma condição séria, mas pode ser muito bem controlada quando diagnosticada corretamente", continua. 

Segundo o especialista, o diagnóstico começa a partir de uma suspeita clínica, quando exames de sangue específicos são solicitados ao paciente. O principal deles pesquisa anticorpos relacionados à reação contra o glúten.

"Mas existe um cuidado fundamental: a pessoa precisa continuar consumindo glúten no momento da investigação. Muita gente tira o glúten da dieta por conta própria antes dos exames, e isso pode mascarar completamente o diagnóstico", alerta. 

Quando os exames vêm alterados, normalmente fazemos uma endoscopia com biópsias do intestino delgado. Esse exame permite avaliar se existe inflamação e a lesão típica da doença celíaca. Em alguns casos, também usamos testes genéticos, especialmente quando existe dúvida diagnóstica ou alguma investigação familiar. Hoje se sabe que existe muita desinformação sobre glúten nas redes sociais, por isso é importante separar moda alimentar de doença verdadeira.

Matone aponta que a doença celíaca é conhecida como "uma grande imitadora da Medicina", porque os sintomas variam muito de pessoa para pessoa. Alguns pacientes têm sintomas clássicos, como diarreia, distensão abdominal, excesso de gases, perda de peso e dor abdominal.

"Muitos outros pacientes apresentam sinais completamente diferentes, como anemia persistente, cansaço excessivo, queda de cabelo, aftas de repetição, osteoporose até em fase precoce, infertilidade ou até depressão e ansiedade. Nas crianças, um alerta importante é a dificuldade de crescimento, irritabilidade e atraso no desenvolvimento", explica. 

Existe um detalhe muito importante: algumas pessoas praticamente não sentem nada. Descobrem a doença apenas em exames de rotina ou em uma investigação de anemia ou deficiência de vitaminas. Então, o grande recado é: a doença celíaca não é só um problema intestinal. Quando o corpo começa a dar sinais repetidos de deficiência nutricional ou de uma inflamação sem explicação clara, é importante pensar nessa possibilidade sempre.

Relação genética

O gastroenterologista aponta que a doença celíaca costuma ocorrer em pessoas com predisposição hereditária específica. Por isso, familiares de primeiro grau --pais, irmãos e filhos-- têm um risco maior e muitas vezes precisam ser investigados mesmo sem sintomas importantes. Apesar disso, vale destacar que a predisposição genética não significa necessariamente que a pessoa desenvolverá a condição.

"É como se o organismo carregasse uma predisposição que pode se manifestar em algum momento da vida. E isso derruba um mito bem importante: a doença celíaca não é apenas uma doença da infância, ela pode surgir em qualquer idade. Existem pacientes diagnosticados aos 20, aos 40 ou até aos 60 anos ou mais. Muitas vezes, algum gatilho parece despertar a doença: alguma infecção intestinal, alteração hormonal, gravidez ou até períodos de estresse muito intenso", diz Matone. 

Riscos da doença 

A falta de tratamento adequado pode trazer diversas complicações para o paciente que sofre com doença celíaca. "O intestino permanece inflamado continuamente, e isso pode trazer consequências importantes a longo prazo. As mais comuns são anemia crônica, deficiência de vitaminas, perda de massa óssea ou até osteoporose em fases precoces e, em crianças, atraso de crescimento e desenvolvimento", comenta o especialista. 

Existem complicações ainda mais sérias. Alguns pacientes evoluem com infertilidade, alterações neurológicas, desnutrição importante e aumento do risco de certos tipos de câncer intestinal e linfomas. E o mais preocupante é que muitas dessas complicações acontecem de forma silenciosa. Às vezes, o paciente acha que está bem, mas o organismo continua sofrendo internamente.

"Não é uma escolha alimentar, não é modismo, não é frescura. É uma condição médica que exige tratamento adequado para proteger a saúde a longo prazo", acrescenta. 

Como é feito o tratamento?

De acordo com o gastroenterologista, o tratamento da doença celíaca exige uma exclusão rigorosa do glúten. Isso inclui alimentos com trigo, centeio, cevada e aveia.

"Não estamos falando apenas de pão e macarrão. O glúten pode estar escondido em molhos, temperos industrializados, embutidos, cervejas, medicamentos e até em contaminação cruzada dentro da cozinha", alerta. 

Pequenas quantidades podem causar inflamação intestinal, mesmo quando a pessoa não sente sintomas imediatos. Esse é um dos maiores perigos da doença celíaca: o intestino pode continuar sofrendo silenciosamente. Por isso, o paciente precisa aprender a ler rótulos, entender os riscos da contaminação e ter acompanhamento nutricional adequado.

"É importante lembrar que o tratamento vai muito além de apenas tirar o pão [da dieta]. É preciso aprender sobre contaminação cruzada, leitura de rótulos, equilíbrio nutricional e acompanhamento médico periódico. Em alguns casos, também corrigimos deficiência de ferro, vitaminas, cálcio e outros nutrientes que ficaram comprometidos pela inflamação da doença."

"Atualmente, a doença celíaca não tem cura definitiva. O que existe é um controle extremamente eficaz por meio da retirada completa do glúten. Quando o paciente segue a dieta corretamente, o intestino cicatriza, os exames normalizam, e a pessoa pode voltar a ter uma excelente qualidade de vida. Mas a predisposição imunológica continua existindo. Ou seja, se o glúten voltar a ser consumido, a inflamação tende a retornar", finaliza. 


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