Crise à vista

Roteiristas dos EUA ameaçam entrar em greve; veja o que está em jogo

Fotos: Divulgação/WGA

Roteiristas em protesto a favor da greve que parou a indústria hollywoodiana em 2007 - Fotos: Divulgação/WGA

Roteiristas em protesto a favor da greve que parou a indústria hollywoodiana em 2007

JOÃO DA PAZ - Publicado em 10/04/2017, às 05h11

A ameaça de uma greve dos roteiristas de Hollywood está causando alvoroço na bilionária indústria de entretenimento norte-americana. O temor tem justificativa: há dez anos, uma paralisação de cem dias comprometeu a produção de séries e filmes.

O setor terá um dia decisivo nesta segunda-feira (10), quando a Aliança de Produções Televisivas e Cinematográficas (AMPTP), representante dos estúdios e produtoras, e o Sindicato dos Roteiristas da América (WGA) se reúnem para discutir questões como aumento de salário e de benefícios trabalhistas. Se não entrarem em acordo até 1º de maio, uma nova greve será inevitável.

Veja a seguir o que está em jogo (e pode impedir que você assista à sua série preferida):

Operário x patrão
Os roteiristas reivindicam basicamente aumento salarial, melhoria nos planos de saúde e melhor política de licença maternidade/paternidade. 

Segundo o sindicato dos roteiristas, a indústria hollywoodiana lucrou US$ 51 bilhões (R$ 159 bilhões) no ano passado. A divulgação desse valor gerou pressão sobre os estúdios, que podem ser considerados gananciosos caso não cedam.

Na última quarta (4), o WGA jogou mais uma carta na mesa: alertou anunciantes de de TV que eles podem perder dinheiro caso a greve ocorra. No próximos mês, as emissoras apresentam para o mercado publicitário a programação da temporada 2017/2018.

 

Em 2007, um dos piquetes dos grevistas ocorreu em frente ao estúdio da Paramount Pictures 

Mais séries = mais trabalhos?
A quantidade de séries no ar atualmente é absurda. De acordo com relatório divulgado pelo canal FX, foram exibidas 455 em 2016. Nunca a TV norte-americana teve tantas séries. Mas uma produção tão grande não significa, necessariamente, mais trabalho para os roteiristas. Pelo contrário: a abundância acaba prejudicando.

Para o roteirista ter uma boa renda, ele tem de trabalhar em duas ou mais séries e tentar emplacar um filme por ano. Atualmente, o salário mínimo desses profissionais tem como base o ganho daqueles que trabalham em séries com mais de 22 episódios por temporada, que estão cada vez mais escassas. Canais e redes têm optado por séries mais curtas, entre 10 e 13 episódios, trabalho que rende aos roteiristas metade do salário-base.

A proliferação de séries também aumentou a concorrência, e é difícil um profissional conseguir ficar ativo por um ano inteiro. Segundo o WGA, a renda de um roteirista de nível médio caiu 23% de 2015 para cá (o salário anual médio é de cerca de US$ 195 mil, o equivalente a R$ 608 mil).

Novos players no jogo
Em 2014, Netflix e Amazon não eram as gigantes de entretenimento que são hoje. Com um volume grande de produções, ambas se tornaram as queridinhas dos roteiristas e estúdios, por terem muito dinheiro para gastar. Mas o modelo de trabalho delas é diferente dos concorrentes, e o WGA quer delimitar as ações de cada uma.

Netflix e Amazon se diferenciam pois pagam às produtoras um valor bem maior do que uma rede de TV aberta. Isso acontece porque elas não licenciam suas produções, diferentemente de uma rede como a NBC, por exemplo, que vende os episódios de suas atrações para canais de TV paga dos próprios Estados Unidos, de outras partes do mundo e para plataformas de streaming. A cada comercialização, os roteiristas abocanham uma parte do valor negociado.

A WGA alega que os roteiristas recebem uma parte ínfima do caminhão de dinheiro despejado pela Netflix e Amazon nas produtoras e estúdios. O sindicato tem como uma de suas prioridades fazer com que os estúdios mudem (e aumentem) a taxa de repasse. 

Centenas de pessoas, incluindo atores de renome, apoiaram a greve dos roteiristas há 10 anos

Grave de 2007
A paralisação de dez anos atrás provocou para o Estado da Califórnia, onde se concentra boa parte da indústria de entretenimento (em Hollywood), um prejuízo de US$ 2,1 bilhões (R$ 6,5 bilhões) em cem dias. Cerca de 37 mil pessoas perderam emprego, segundo relatório do instituto de pesquisa Milken. Na época, os estúdios ficaram muito pressionados, porque até atores de peso apoiaram os roteiristas e participaram dos piquetes.

Pouquíssimas séries não foram afetadas. As que escaparam foram aquelas que já tinham episódios prontos antes da greve, como Todo Mundo Odeia o Chris, Mad Men e Dexter. A maioria das atrações teve temporadas abreviadas (The Big Bang Theory, CSI e Prison Break) ou foi adiada (24 Horas, Damages).

Sem ter o que exibir, as redes norte-americanas apelaram para reality shows, game shows e programas de competição. A criatividade foi testada, e o canal VH1, por exemplo, bolou uma disputa para medir o nível de inteligência de modelos, chamada America's Most Smartest Model. O ano de 2007 marcou também o nascimento do popular Keeping up with the Kardashians, do E!, que simplesmente acompanha o cotidiano da famosa família de socialites.

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