Mandala

Há 30 anos, novela foi censurada por incesto, bissexualidade e política

Divulgação/Globo

Felipe Camargo e Vera Fischer interpretaram mãe e filho que se apaixonavam em Mandala - Divulgação/Globo

Felipe Camargo e Vera Fischer interpretaram mãe e filho que se apaixonavam em Mandala

REDAÇÃO - Publicado em 12/10/2017, às 06h47

Protagonizada por Vera Fischer, a novela Mandala apresentou ao público uma família brasileira nada tradicional em 12 de outubro de 1987, data de sua estreia. A trama, de autoria de Dias Gomes, tinha uma tragédia grega como ponto de partida e explorava vários tabus da sociedade, como bissexualidade, misticismo e vício em drogas.

Sob a vigência da Censura Federal, que só acabaria no ano seguinte, a Globo teve de negociar em Brasília para manter cenas consideradas impróprias. Mas algumas passagens políticas e tramas sofreram tesouradas.

A história dos personagens principais era baseada em Édipo Rei, tragédia de Sófocles em que um filho se apaixona pela mãe. Jocasta, vivida por Vera, e Édipo, personagem de Felipe Camargo, seguiram essa mesma trajetória ao longo dos capítulos, e a emissora sofreu muita resistência até conseguir permissão para exibir um beijo entre os dois, mãe e filho.

O início da trama, que se passava em 1961, também não agradou aos censores. Com personagens comunistas e referências ao governo de Jânio Quadros (1961), a sinopse da novela só foi liberada após a equipe realizar as alterações solicitadas.

Relembre as polêmicas que marcaram Mandala:

reprodução/globo

Cena romântica entre Jocasta (Vera Fischer) e Édipo (Felipe Camargo), mãe e filho na novela

Complexo de Édipo
Na primeira fase da novela, após engravidar Jocasta (Giulia Gam), Laio (Taumaturgo Ferreira) pediu conselhos a seu guru espiritual. Argemiro (Marco Antonio Pâmio) previu que o menino iria odiá-lo e teria uma relação amorosa com a mãe. Assustado, Laio tramou para que a enfermeira da maternidade raptasse o bebê e sumisse com ele.

Anos depois, Jocasta continuava à procura do filho perdido quando encontrou Édipo por acaso _se tornou chefe da então namorada dele. Sem saber que eram mãe e filho, os dois não resistiram à paixão.

A censura tentou proibir uma cena de beijo entre eles, sob a alegação de que seria muito agressiva para o público. Após muitas negociações, a Globo conseguiu que a sequência fosse ao ar com o argumento de que os personagens desconheciam suas condições de mãe e filho. Os dois, no entanto, não ficaram juntos na história.

Após interpretarem o casal inusitado na segunda fase da trama, Felipe Camargo e Vera Fischer começaram um namoro real, que virou casamento em 1988. O relacionamento terminou em 1995.

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O ator Carlos Augusto Strazzer viveu o místico e mau caráter Argemiro na novela Mandala

Misticismo
A segunda fase de Mandala foi marcada por muitas cenas que envolviam práticas místicas, nem sempre voltadas para o bem. O personagem Argemiro (Carlos Augusto Strazzer) era o principal foco: guru espiritual, ele jogava búzios, fazia profecias e até travou uma batalha mental contra Édipo. Este, por sua vez, era estudioso voraz de várias práticas esotéricas e recorria também a cartomantes e pais de santo para se guiar sobre suas decisões de negócios ilícitos.

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Além do filho, Jocasta também despertou a paixão do próprio irmão, Creonte (Gracindo Jr.)

Incesto – Parte 2
Além do relacionamento entre mãe e filho, Jocasta também provocava desejos sexuais em seu próprio irmão, Creonte (Gracindo Jr.). Ele sentia muito ciúme da irmã e raiva por não poder expressar sua paixão sem ser repreendido. Creonte afastava todos que se interessavam por Jocasta, mas não conseguiu impedir que ela terminasse a trama ao lado do carismático Tony Carrado (Nuno Leal Maia).

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Célia Helena e Giulia Gam em cena da primeira fase de Mandala, no núcleo comunista

Trama política
Na primeira fase da novela, Jocasta era uma estudante de sociologia e seu pai, militante do Partido Comunista. Os dois participavam ativamente da campanha legalista, que pedia a manutenção da ordem jurídica no Brasil após a renúncia de Jânio Quadros (1917-1992), em agosto de 1961. Os militares, por outro lado, defendiam o rompimento da ordem jurídica, o impedimento da posse do vice João Goulart (1919-1976) e a convocação de novas eleições.

Mesmo em 1987, após o período da Ditadura Militar (1964-1985), o governo de José Sarney (1985-1990) ainda contava com censores federais, que implicaram com as insinuações políticas da trama. Eles criticaram muito o texto original dos primeiros capítulos, e os roteiristas foram obrigados a mudar algumas passagens.

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Laio, personagem de Perry Salles, tinha sua bissexualidade subentendida em Mandala

Bissexualidade e drogas
Ainda que não fosse retratada como algo muito explícito, ficou claro para o público (e para os censores) que a relação entre Argemiro e Laio (Perry Salles na segunda fase) era mais do que apenas amizade. Na primeira fase, Argemiro era extremamente ligado a Laio e assumia que detestava a namorada dele, Jocasta. Já na segunda fase, Laio tinha um amante, chamado Cris.

Já as drogas aparecem na história do personagem Hans (Marcos Breda), um dos rapazes que Jocasta conheceu na busca por seu filho desaparecido. Tentando acreditar que aquele era o bebê que ela teve, a protagonista procurou ajudá-lo a se livrar do vício.

Temas como bissexualidade e drogas foram considerados impróprios para o horário das 20h30 pela Censura, que só liberou propostas da sinopse de Mandala com alterações.

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