Segundo Sol

Atriz negra recusou convite para ser protagonista de novela da Globo na Bahia

Renato Rocha Miranda/TV Globo

Camila Pitanga está longe das novelas desde setembro de 2016, quando terminou Velho Chico - Renato Rocha Miranda/TV Globo

Camila Pitanga está longe das novelas desde setembro de 2016, quando terminou Velho Chico

DANIEL CASTRO e MÁRCIA PEREIRA - Publicado em 04/05/2018, às 05h22

A polêmica sobre a falta de atores negros no elenco de Segundo Sol, próxima novela das nove da Globo, poderia não existir se Camila Pitanga tivesse aceitado o convite da emissora para defender a principal personagem feminina da trama de João Emanuel Carneiro, Luzia, interpretada por Giovanna Antonelli.

Carneiro sempre quis Giovanna no papel de Luzia, mas a direção da Globo tentou mudar a história. Em outubro do ano passado, chegou a tirar Giovanna de Segundo Sol, então chamada provisoriamente de De Volta Para Casa, conforme publicou o Notícias da TV na época.

A emissora temia justamente o que está acontecendo agora: ser alvo de campanhas nas redes sociais criticando a falta de representatividade negra em uma novela ambientada na Bahia _dos 44 atores da produção, apenas quatro são negros.

Executivos da área artística da Globo convenceram João Emanuel Carneiro de que Giovanna, que já tinha pertencido a uma família japonesa em Sol Nascente (2016), era muito branca e italiana para incorporar uma típica baiana. A emissora, então, convidou Camila Pitanga.

A atriz, no entanto, recusou o papel. Argumentou que ainda não se sentia pronta para voltar aos estúdios, traumatizada que estava por ter testemunhado a morte de Domingos Montagner no rio São Francisco, na reta final de Velho Chico, em setembro de 2016.

Segundo fontes na Globo, pesou também na decisão de Camila o fato de a personagem não ter sido pensada para ela, e sim para Giovanna. A atriz passou 2017 longe da TV. Sua volta estava prevista  para 2018.

Sem Camila, a direção da Globo cogitou Taís Araújo, mas a atriz foi descartada porque está no ar na quarta e última temporada de Mister Brau. Sequer foi convidada. Sem alternativa, a emissora reescalou Giovanna para o papel de Luzia, par romântico de um cantor de axé que é dado como morto e aceita desaparecer para tirar proveito comercial da comoção.

joão cotta/tv globo

Beto Falcão (Emilio Dantas) e Luzia (Giovanna Antonelli) são os protagonistas de Segundo Sol

Segunda chance
A sinopse de Segundo Sol indica que a novela poderia se passar em qualquer lugar do país. Acabou sendo ambientada na Bahia porque a Globo enfrenta graves problemas de audiência em Salvador. Na capital baiana, a afiliada da maior rede do país perde para a Record desde fevereiro na média das 7h às 18h e já apelou ao sensacionalismo típico da concorrência ao exibir o corpo de um homem morto em telejornal local.

Segundo Sol é sobre uma segunda chance. "É a saga de uma mulher para reunir de novo a família que foi despedaçada. É um drama familiar, escrito em tom realista", descreve a sinopse de Carneiro.

Luzia é essa sofredora, obrigada a viver exilada por causa de um crime que não cometeu. Ela voltará da Islândia (Europa) após a passagem de 18 anos, bem-sucedida como DJ e disposta a resgatar o amor dos dois filhos que deixou para trás.

Beto Falcão (Emílio Dantas) é um cantor de axé, mas poderia ser de rock ou qualquer outro ritmo. A história é a de um músico em decadência, que salvará a família da miséria ao fingir que está morto, vítima de um acidente aéreo.

"Minha primeira referência foi um grande amigo, o Léo Pinheiro, músico do Tocantins, que não tem nada a ver com a Bahia, mas ele tem um jeito que eu acho que tem a ver com esse personagem", revela Dantas.

Embranquecimento
A escalação de Roberta Rodrigues para o papel que seria de Carol Castro faz parte dos ajustes da emissora para ter negros no elenco, assim como Danilo Ferreira. Atores baianos também estão com papéis principais: Vladimir Brichta, Danilo Mesquita e Fabrício Boliveira, mas isso ainda não elimina a necessidade de representatividade em Segundo Sol.

Boliveira (Roberval) fará o filho de uma empregada negra com um empresário rico branco. Ele foi renegado pelo pai por ser negro, enquanto seu irmão Edgar (Caco Ciocler), filho da mesma mãe e do mesmo pai, foi criado como filho legítimo por ter a pele branca. 

joão miguel jr/tv globo

Fabrício Boliveira diz que discutir representatividade na novela é um diálogo inteligente

Boliveira diz que o debate racial estará presente na novela, mas vê a discussão da representatividade negra no elenco como algo pertinente. "Eu acho importante ter um diálogo inteligente. Acho que esse diálogo que o público [redes sociais] está propondo é mais importante, para mim, do que quem matou quem", diz.

Acusada nas redes sociais de "embranquecer" a Bahia, a emissora realizou uma reunião na última quarta-feira orientando o elenco sobre como falar sobre tema na próxima terça (8), data em que o elenco terá contato com jornalistas na festa de lançamento da trama no Rio de Janeiro.

A emissora explicou, porém, que a reunião foi solicitada por um grupo de atores, que queriam conhecer o posicionamento da empresa sobre os comentários críticos à escalação da novela. Ou seja, a emissora foi questionada por atores incomodados.

"Uma história como a de Segundo Sol, também pelo fato de se passar na Bahia, nos traz muitas oportunidades e, sem dúvida, reflexões sobre diversidade na sociedade, que serão abordadas ao longo da novela, que está estruturada em duas fases. Que as manifestações críticas que vimos até agora estão baseadas sobretudo na divulgação da primeira fase da novela, que se concentra na trama que vai desencadear as demais", respondeu a emissora em nota divulgada ontem (3).

"Que estamos atentos, ouvindo e acompanhando esses comentários, seguros de que ainda temos muita história pela frente. Foi colocado [na reunião com atores] que, de fato, ainda temos uma representatividade menor do que gostaríamos e vamos trabalhar para evoluir com essa questão", continua a nota.

"É importante esclarecer que conversas como as que aconteceram ontem [quarta] são comuns e, inclusive, encorajadas numa empresa que preza a transparência e o diálogo com seus colaboradores", finaliza o texto da Comunicação da Globo.

 

 

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